UE e Mercosul destravam acordo após 26 anos e Brasil mira mercado de 451 milhões
Aprovação provisória abre caminho para assinatura; tratado promete cortar tarifas, mexer em regras e aquecer comércio, investimentos e circulação de profissionais
Depois de mais de 26 anos de negociação, a União Europeia aprovou provisoriamente o acordo comercial com o Mercosul. Na prática, o sinal verde abre caminho para a assinatura formal prevista para a próxima segunda-feira (12), no Paraguai.
O tratado é vendido como uma virada grande: junta cerca de 451 milhões de consumidores europeus e aproximadamente 300 milhões de sul-americanos, criando uma das maiores zonas de livre comércio do planeta. A promessa é mexer direto em exportações, importações, investimentos, cadeias produtivas e até na forma como empresas e profissionais circulam entre os blocos.
Na leitura do advogado Daniel Toledo, especialista em Direito Internacional, o acordo tem peso geopolítico e econômico e coloca o Brasil com mais fôlego em um jogo de comércio internacional marcado por disputas e protecionismo. A visão é de que o pacto amplia acesso a mercados com regras mais rígidas, dá mais previsibilidade jurídica para investidores e reposiciona o país nas cadeias globais de valor.
O que está no pacote não se resume a tarifa. A proposta fala em redução gradual ou eliminação de impostos de importação e exportação e em harmonização de regras em áreas como comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos, propriedade intelectual e padrões regulatórios. Há a estimativa de que mais de 90% das tarifas entre os blocos sejam eliminadas ao longo dos próximos anos, em um processo escalonado.
Para o Brasil, o debate costuma ficar preso ao agronegócio, mas a avaliação apresentada é que os efeitos podem ser mais amplos, atingindo indústria e serviços. A União Europeia já representa cerca de 14% do comércio exterior brasileiro, e a expectativa é de aumento do fluxo, com espaço para setores como manufatura, energia, economia verde e tecnologia.
A demora de 26 anos é explicada, no material, por resistências políticas, econômicas e sociais dos dois lados. Na Europa, parte da preocupação veio do impacto sobre o setor agrícola, com resistência citada em países como França, Irlanda e Polônia. No Mercosul, instabilidades políticas, trocas de governo e preocupações ambientais também pesaram no ritmo.
Um ponto apresentado como decisivo no desfecho foi a posição da Itália, que teria condicionado o apoio a garantias adicionais ao setor agrícola europeu. A votação ganhou força com uma proposta da Comissão Europeia de acelerar a liberação de € 45 bilhões em recursos para agricultores, o que ajudou a destravar o apoio necessário.
No campo dos efeitos práticos, o diretor da consultoria How2Go no Brasil, Marcelo Vitali, coloca foco na abertura gradual e na harmonização regulatória como motor de comércio. Um exemplo imediato apontado é o setor de frutas frescas: hoje itens como manga e uva enfrentam tarifas para entrar na União Europeia, enquanto concorrentes de outros países já entram com mais facilidade. A expectativa descrita é que, com a aprovação e sanção pelos blocos, a redução tarifária dê mais competitividade para a fruta brasileira.
O estudo citado também enxerga ganhos para o agronegócio em áreas como grãos, açúcar, café e alimentos industrializados. Do lado europeu, segmentos como vinhos e lácteos tenderiam a ganhar espaço com a abertura progressiva do mercado do Mercosul.
O acordo também pode aparecer no dia a dia do consumidor. A projeção apresentada é de maior acesso do brasileiro a produtos europeus hoje mais taxados, como vestuário, eletrônicos e perfumes, enquanto o consumidor europeu teria mais produtos brasileiros chegando com preços mais competitivos.
Mesmo setores pouco visíveis ao público entram no radar, como a indústria química, que costuma operar integrada em cadeias globais. A combinação de redução tarifária com alinhamento de regras e certificações é apontada como um caminho para cortar custos e facilitar acesso ao mercado europeu.
E a migração? O texto ressalta que o tratado não trata diretamente de imigração, mas pode ter efeitos indiretos. Uma leitura é que o crescimento econômico e a geração de oportunidades podem reduzir pressões migratórias forçadas ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, a aproximação comercial tende a ampliar a mobilidade qualificada, com mais demanda por executivos, técnicos e especialistas circulando dentro de marcos legais, puxados por investimentos e negócios entre as regiões.
Agora, o termômetro passa a ser a formalização. A assinatura do acordo está prevista para segunda-feira (12), mas a materialização dos efeitos depende dos próximos passos institucionais e do calendário de implementação, já que a eliminação de tarifas é descrita como gradual e feita ao longo dos anos.



COMENTÁRIOS