Investigação iniciada pelo jornalista Renato Silva revela alta em contrato de esterilização da saúde em Nova Odessa
Apuração encaminhada ao vereador Faganello resultou em resposta oficial da Prefeitura; em nova etapa, o jornalista identificou atos assinados pelo prefeito em 2022 e bastidores apontam possível influência do advogado Renato Amorim na tramitação interna
Uma investigação jornalística conduzida pelo jornalista Renato Silva levantou questionamentos sobre os gastos da Prefeitura de Nova Odessa com serviços de esterilização de materiais e peças cirúrgicas utilizados nas unidades de saúde do município.
Após reunir informações preliminares sobre a contratação, Renato Silva encaminhou a denúncia ao vereador André Faganello. O parlamentar levou o caso ao Legislativo por meio do Requerimento nº 135/2026, solicitando informações e documentos à administração municipal.
A partir do pedido formal, a Prefeitura de Nova Odessa enviou resposta oficial à Câmara Municipal, acompanhada de contratos, aditivos, notas fiscais e relatórios relacionados ao serviço de esterilização.
A documentação entregue pela administração revela uma mudança expressiva nos valores envolvidos na contratação da empresa Sterimed Cedral Serviços de Esterilização Ltda., responsável pela esterilização de materiais utilizados nas UBSs e no Hospital e Maternidade Municipal Dr. Acílio Carreon Garcia.
De acordo com a resposta encaminhada pela Prefeitura, o contrato anterior tinha valor inicial de R$ 102.335,99. Posteriormente, esse valor foi reequilibrado para R$ 153.503,98.
No novo processo licitatório, referente ao Pregão Eletrônico nº 05/2025, o valor global informado chegou a R$ 2.040.000,00. Depois de uma supressão de 10%, o contrato passou para R$ 1.836.000,00.
A comparação entre o contrato anterior reequilibrado, de R$ 153.503,98, e o novo valor global de R$ 1.836.000,00 representa uma elevação aproximada de 1.096%.
É importante destacar que o valor global de um contrato não significa, necessariamente, que todo o dinheiro já foi pago. Ele representa o limite previsto para a execução do serviço durante a vigência contratual. Ainda assim, a diferença chama atenção e exige explicações claras da administração pública.
Pagamentos mensais também cresceram
Além do salto no valor global contratado, os pagamentos efetivamente informados também apresentam aumento.
Segundo os dados encaminhados pela Prefeitura, em 2024 os pagamentos mensais pelo serviço de esterilização variaram aproximadamente entre R$ 16 mil e R$ 35 mil. No acumulado do ano, os valores somaram cerca de R$ 305,2 mil, com média mensal aproximada de R$ 25,4 mil.
Já no contrato vigente, os pagamentos listados na documentação somam R$ 672.598,75, com média próxima de R$ 67,2 mil por pagamento mensal.
Na prática, mesmo separando o valor global contratado do valor efetivamente pago, os dados indicam aumento relevante nos desembolsos mensais. A média mensal informada no novo período é cerca de 164% maior do que a média registrada em 2024.
Esse crescimento levanta uma pergunta central: houve aumento proporcional na demanda, no número de procedimentos, na quantidade de materiais esterilizados ou na complexidade do serviço?
Serviço é essencial, mas aumento precisa ser explicado
A esterilização de materiais hospitalares é um serviço indispensável para a segurança dos pacientes. Trata-se do processo que elimina micro-organismos de instrumentos, peças e materiais utilizados em atendimentos e procedimentos de saúde.
Sem esterilização adequada, há risco de contaminação, infecção e comprometimento da segurança dos pacientes. Portanto, a discussão não é sobre a necessidade do serviço. O serviço é necessário e fundamental.
O ponto que precisa ser explicado é a elevação expressiva dos valores envolvidos na contratação.
Em outras palavras: se o gasto cresceu, a demanda também cresceu na mesma proporção?
Essa é uma pergunta que precisa ser respondida de forma objetiva, com números, relatórios e justificativas técnicas compreensíveis para a população.
Diário Oficial mostra assinaturas do prefeito em atos de 2022
Além das informações obtidas por meio da resposta oficial ao Requerimento nº 135/2026, outro ponto foi identificado posteriormente pelo próprio jornalista Renato Silva em publicações do Diário Oficial do Município de Nova Odessa.
Nas publicações localizadas, o nome do prefeito Cláudio José Schooder aparece em atos administrativos de 2022 relacionados a contratos e termos aditivos.
Em uma das publicações, datada de 28 de setembro de 2022, o prefeito assina ato referente à classificação e julgamento de procedimento administrativo envolvendo empresa prestadora de serviço. Em outra publicação, datada de 20 de setembro de 2022, consta extrato de termo aditivo de prorrogação de prazo contratual também assinado por Cláudio José Schooder, na condição de prefeito municipal.
Embora a assinatura do chefe do Executivo não signifique, por si só, qualquer irregularidade, o fato foi identificado por Renato Silva como um ponto relevante da apuração jornalística.
A estranheza aumenta porque, em outros documentos relacionados a contratos e atos administrativos semelhantes, a tramitação aparece vinculada a secretários, ordenadores de despesa, gestores de contrato ou responsáveis técnicos da pasta. Por isso, a presença direta do prefeito em determinados atos, mas não em outros, levanta uma dúvida legítima: por que alguns documentos chegaram à assinatura direta do chefe do Executivo?
Em contratos técnicos de áreas específicas, como saúde, não costuma ser a prática administrativa mais comum que o prefeito assine diretamente atos operacionais ou aditivos que poderiam tramitar pela estrutura da secretaria responsável. Isso não torna o ato automaticamente irregular, mas torna o episódio politicamente e administrativamente relevante.
A pergunta que fica é: qual foi o grau de participação direta do prefeito na condução desses contratos e alterações contratuais?
Bastidores citam possível atuação de Renato Amorim
Nos bastidores políticos e administrativos de Nova Odessa, há relatos de que Renato Amorim, advogado e apontado por interlocutores como um dos nomes de forte influência junto ao prefeito, teria atuado na condução política e administrativa de processos sensíveis do governo.
Segundo essas informações de bastidores, ainda não comprovadas documentalmente no caso específico do contrato de esterilização, Renato Amorim teria participado da articulação interna para que determinados documentos fossem levados à assinatura direta do prefeito.
A apuração jornalística não afirma, neste momento, que Renato Amorim tenha praticado qualquer irregularidade. O ponto é outro: diante da assinatura incomum do prefeito em determinados atos e da evolução expressiva dos valores do contrato, torna-se legítimo questionar quem orientou a tramitação, quem recomendou a assinatura direta pelo chefe do Executivo e quais pareceres jurídicos ou administrativos embasaram essa decisão.
Por isso, a eventual participação de Renato Amorim precisa ser esclarecida pela Prefeitura. Houve orientação jurídica? Houve despacho interno? Houve parecer recomendando que o contrato ou o aditivo fosse assinado diretamente pelo prefeito? Quem levou esses documentos para assinatura?
Essas perguntas são relevantes porque contratos públicos precisam seguir uma cadeia clara de responsabilidade. Quando um documento técnico da área da saúde sai da rotina administrativa comum e chega à assinatura direta do prefeito, a população tem o direito de saber por quê.
Conferência manual dos documentos chama atenção
Outro ponto relevante da resposta oficial é a informação de que a conferência dos relatórios e das notas fiscais é feita manualmente pela equipe responsável.
Esse detalhe reforça a necessidade de fiscalização rigorosa, com controle claro sobre quantidades, materiais processados, valores unitários e comprovação da execução do serviço.
Em contratos dessa natureza, a população precisa conseguir entender quatro pontos básicos: o que foi esterilizado, em qual quantidade, por qual preço e com qual justificativa para o aumento dos valores.
Quando a conferência é manual, a transparência precisa ser ainda maior. É necessário que a administração demonstre, com clareza, quais materiais foram enviados, quais retornaram esterilizados, qual foi o custo unitário e quem validou cada etapa do processo.
Perguntas que ainda precisam ser respondidas
A documentação encaminhada pela Prefeitura apresenta contratos, aditivos, notas fiscais e relatórios, mas os números levantam questionamentos que ainda precisam ser explicados de forma objetiva à população.
Entre as principais perguntas estão:
Quantos materiais eram esterilizados por mês em 2024?
Quantos passaram a ser esterilizados em 2025 e 2026?
Houve aumento de cirurgias, atendimentos ou procedimentos que justifique a alta?
O preço unitário por item esterilizado aumentou?
A nova licitação teve ampla concorrência?
Quem confere as quantidades apresentadas pela empresa?
Como a Prefeitura comprova que tudo o que foi cobrado foi efetivamente realizado?
Por que o valor global do novo contrato foi fixado em R$ 1.836.000,00?
Por que determinados atos e aditivos aparecem assinados diretamente pelo prefeito, enquanto outros seguem fluxo administrativo diferente?
Quem orientou a tramitação desses documentos até a assinatura do chefe do Executivo?
Renato Amorim teve alguma participação direta ou indireta na condução, orientação ou encaminhamento desses atos?
Houve parecer jurídico ou técnico justificando as alterações contratuais?
Os órgãos de controle foram informados sobre a evolução desses valores?
Caso exige transparência
A investigação conduzida por Renato Silva, posteriormente encaminhada ao vereador André Faganello, resultou na obtenção de documentos oficiais que agora permitem uma análise mais detalhada dos gastos públicos com esterilização na saúde municipal.
Com base nos documentos analisados, não é possível afirmar, neste momento, a existência de crime ou irregularidade comprovada. No entanto, os valores revelam uma elevação expressiva que exige explicação pública.
Também chama atenção a presença do prefeito Cláudio José Schooder assinando publicações e atos administrativos em 2022 relacionados a contratos e aditivos. Embora esse fato, isoladamente, não permita concluir qualquer ilegalidade, ele se torna relevante diante do histórico de aumento dos valores e da necessidade de compreender como a contratação foi conduzida ao longo dos anos.
Da mesma forma, os relatos de bastidores sobre uma possível atuação de Renato Amorim na tramitação interna dos documentos precisam ser esclarecidos. A apuração não trata essa informação como fato comprovado, mas como um ponto que merece resposta pública, especialmente diante da relação política e administrativa atribuída a ele nos bastidores do governo.
Em contratos de saúde, a administração municipal tem o dever de demonstrar, com dados objetivos, a necessidade do aumento e a compatibilidade dos valores pagos com a demanda real do serviço.
A população de Nova Odessa precisa saber se o crescimento dos gastos acompanha um aumento real da demanda hospitalar ou se há distorções que precisam ser investigadas pelos órgãos de controle.
A esterilização de materiais é indispensável para proteger pacientes. Mas a transparência nos contratos é indispensável para proteger o dinheiro público.
Instrumento hospitalar precisa sair esterilizado. Dinheiro público precisa sair explicado.



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