Policial é condenado a 21 anos por homicídio em Mauá
Sentença em regime fechado para PM que matou mecânico em briga de trânsito. Caso ocorreu em julho do ano passado.
A Justiça de São Paulo condenou o policial militar Kaio Lopes Raimundo a 21 anos, 9 meses e 10 dias de prisão em regime fechado, por homicídio qualificado por motivo fútil. A decisão, proferida nesta quinta-feira (13/08/2026), refere-se à morte do mecânico Clayton Juliano da Silva, de 38 anos, ocorrida em julho do ano passado, durante uma discussão de trânsito na Avenida Barão de Mauá, em Mauá.
O incidente aconteceu em uma tarde de domingo, quando o mecânico Clayton Juliano da Silva dirigia seu carro com a esposa, a sogra e um sobrinho de 9 anos. Segundo o relato da esposa, Cristiane Maria da Silva, o policial militar Kaio Lopes Raimundo, de 32 anos, pilotava uma motocicleta à frente do veículo da família, obstruindo a passagem enquanto conversava com outro motorista. Clayton teria buzinado e pedido passagem.
Após dar passagem ao carro, o PM teria se aproximado da janela do passageiro, onde Cristiane estava, e disparado spray de pimenta em seus olhos. A esposa da vítima afirmou que não houve discussão entre os dois homens. Na sequência, Kaio efetuou quatro disparos contra o veículo em movimento, um dos quais atingiu a nuca de Clayton, que morreu no local. Uma criança de 9 anos, que estava no banco de trás, também foi baleada.
O carro da família, desgovernado, seguiu na contramão e colidiu com um muro. Kaio Lopes Raimundo foi preso em flagrante e, em seu depoimento, alegou legítima defesa, afirmando ter se sentido ameaçado e acreditado que o mecânico sacaria uma arma. Contudo, a polícia não encontrou nenhuma arma com Clayton Juliano da Silva.
A condenação por homicídio qualificado por motivo fútil refuta a versão do policial, que negou ter disparado spray de pimenta e argumentou ter reagido a uma "agressão" e ameaça de morte. A defesa do policial militar não foi localizada para comentar a decisão.
O caso ocorre em um cenário de aumento da letalidade policial no estado de São Paulo. Dados do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados na semana passada, indicam que, enquanto o Brasil registrou uma queda de 3,1% nas Mortes Decorrentes de Intervenção Policial (MDIP), São Paulo teve um crescimento de 61% em 2024. Em 2023, 504 pessoas foram mortas por policiais no estado; em 2024, esse número subiu para 813.
Esse aumento em São Paulo foi o maior entre todas as unidades da federação. A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, aponta o crescimento da letalidade policial como um dos fatores para o aumento das mortes violentas intencionais no estado, que contraria a tendência nacional de queda de 5,4%.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo, em nota, afirmou que os casos de MDIP estão em queda nos primeiros cinco meses de 2026, com uma redução de 3,86% em comparação ao mesmo período de 2024. A pasta reiterou que todos os incidentes dessa natureza são investigados pelas corregedorias das polícias Civil e Militar, com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário. A condenação de Kaio Lopes Raimundo pode servir de precedente para casos semelhantes de violência policial em discussões de trânsito e outras situações envolvendo agentes de segurança.



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